Brazil Machinery Solutions

Segurança alimentar e autonomia da agricultura familiar: políticas implementadas pelo Marrocos




24 - fevereiro - 2021

Em conversa com o Blog Brazil Machinery Solutions, o diplomata Felipe Heimburger comenta o atual desenvolvimento agropecuário do Marrocos

O Blog do Brazil Machinery Solutions convidou o Chefe do Setor de Promoção Comercial da Embaixada do Brasil em Rabat, Marrocos, Felipe Heimburger, para contar um pouco mais sobre o desenvolvimento da produção agrícola marroquina. Na busca por segurança alimentar e por uma maior autonomia da agricultura familiar, o Marrocos apostou em políticas que fortaleceram o setor, como o Plano Maroc Vert (2008-2020) e o recém lançado Green Generation (2020-2030).

Segundo Felipe Heimburger, o setor agrícola marroquino emprega quase 40% da população economicamente ativa daquele país, é responsável pela segurança alimentar nacional e tem se mostrado resiliente, apesar dos efeitos nocivos da pandemia de Coronavírus na economia nacional. Com um índice de chuvas animadoras em novembro de 2020 e janeiro de 2021, o governo do Marrocos espera, até o final do ano de 2021, investimentos da ordem de MAD 38 bilhões (aproximadamente 3,8 bilhões de dólares americanos) no setor agrícola, visando a criação de empregos e o aumento de dois pontos percentuais suplementares do PIB.

Quanto às restrições à expansão do setor agrícola no Marrocos, o maior empecilho diz respeito à limitação da superfície agrícola útil (8,7 milhões de hectares; quase 12,2% do território marroquino) e à escassez de água em regiões com índices pluviométricos baixos e irregulares. Além de pequenos tratores, colheitadeiras e máquinas agrícolas para operação em regiões produtoras de cereais nas montanhas e vales da cordilheira do Atlas (cadeia de montanhas no noroeste da África que perpassa Marrocos, Argélia, Tunísia), o Brasil tem potencial para contribuir com equipamentos de precisão e soluções tecnológicas para a irrigação agrícola moderna e eficiente, defende o Chefe do SECOM. Também há demanda por máquinas de produção e mistura de ração para o consumo dos rebanhos bovinos, caprinos e de aves.

A modernização da agricultura, o desenvolvimento rural e a segurança alimentar são prioridades para o Marrocos desde a implantação do Plano “Maroc Vert” em 2008, que em 2020 foi sucedido pelo recém-lançado e ambicioso “Green Generation 2020-2030”. O Plano “Maroc Vert” logrou aumentar a produção e a produtividade da agricultura nacional, com impactos positivos na segurança alimentar (autossuficiência de 100% em frutas e legumes, de 95% em proteína animal, de 60% em cereais e de 45% em açúcar) e na exportação de produtos agrícolas em geral. No domínio da promoção da irrigação, o plano teve como êxito a extensão da superfície irrigada com sistemas de precisão gota a gota, que passou de 160.000 ha em 2008 a 585.000 ha em 2019.

De acordo com Heimburger, o plano não teve tanto êxito quando o assunto foi a modernização dos abatedouros de animais e a dinamização dos circuitos de distribuição de insumos e alimentos. Quanto às oportunidades do Brasil em contribuir para o “Green Generation 2020-2030”, Felipe comenta do papel do Brasil como provedor de tecnologia em nichos específicos e setores ainda não desenvolvidos totalmente (irrigação, máquinas para produção e a mistura de ração, máquinas ou módulos completos de abatedouros para aves, caprinos e bovinos). A participação brasileira também deve levar em conta os principais parceiros do Marrocos, cabendo citar Alemanha (que instalou no país o CECAMA – centro de capacitação e treinamento, https://www.cecama.ma/), Itália, Espanha, França e Turquia. Esses países têm histórico de cooperação com o governo marroquino e são competitivos no processo de venda, financiamento e assistência no pós-venda das máquinas, equipamentos e soluções tecnológicas. Todos os países mencionados desfrutam, com os Acordos de Livre Comércio em vigor, de vantagens tarifárias não desprezíveis em relação ao Brasil. Contudo, visto a desvalorização do real frente ao dólar, a qualidade e a tecnologia podem tornar certos produtos brasileiros competitivos no mercado marroquino.

Ainda de acordo com o Chefe do SECOM de Rabat, o governo do Marrocos apoia o desenvolvimento da avicultura e da pecuária bovina de corte e de leite, e busca a autossuficiência no setor. A produção local é fortemente protegida pela imposição de barreiras tarifárias muito elevadas (MFN tarifa aplicada de 200%). O rebanho local é estimado pelo Ministério da Agricultura em pouco mais de 31 milhões de cabeças, sendo 22 milhões de aves, 6 milhões de caprinos, 3,3 milhões de bovinos, 170 mil camelos. As principais culturas no Marrocos seguem sendo o trigo e a cevada que, somadas, ocupam área de plantio de 4,7 milhões de hectares (2018) e respondem por 97% do total de 10,4 milhões de toneladas de grãos produzidos anualmente. Contudo, atendem somente de 30 a 80% da demanda local, em função das condições climáticas e pluviométricas, sendo o restante importado. A grande extensão das culturas de cereais, demandantes em recursos hídricos, em relação à superfície total agricultável (52%) traz enormes desafios em função da escassez de água. As políticas voltadas à produção agrícola no Marrocos têm procurado estimular culturas com menos necessidade de água e com valor de mercado, em especial ganhando relevância em área cultivada e em produtividade a produção de frutas, hortaliças, legumes, assim como a olericultura e a vinicultura.

A exportação de produtos de muita qualidade como tomates, óleo de árgão e frutas vermelhas vem ganhando força. São também importantes os investimentos da COSUMAR nas culturas de cana de açúcar e, sobretudo, de beterraba para a produção local de açúcar (58,9 mil ha em beterraba e 2,4 mil ha em cana) na refinaria da COSUMAR em Casablanca. A empresa de economia mista detém o monopólio da importação e do refino do açúcar no Marrocos, e que tem reexportado o açúcar brasileiro a mais de cinquenta mercados.

Raio-X Marrocos

População: + de 36 milhões de habitantes

Capital: Rabat

Maior Cidade: Casablanca

Feiras do setor agrícola: A principal feira do país e do Norte da África acontece na cidade marroquina de Meknès. A Feira Internacional de Agricultura do Marrocos (SIAM – Salon International De L’Agriculture Au Maroc) postergou a edição de 2020, que deveria acontecer em 2021. Em novo comunicado, a organização da feira decidiu cancelar a edição prevista para 2021 com base na ainda preocupante pandemia de Covid-19.