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Acordo comercial entre Brasil e EUA deve beneficiar setor de manufaturados




17 - setembro - 2019

Em entrevista para o Em Ação, Abrão Miguel Árabe Neto, vice-presidente executivo da Amcham, fala sobre os possíveis desdobramentos da aproximação entre as nações 

É cada vez mais concreta a possibilidade da assinatura de um acordo histórico entre o Brasil e os Estados Unidos. O Em Ação conversou com Abrão Miguel Árabe Neto, vice-presidente executivo da Câmara Americana (Amcham), sobre o assunto. 

Na entrevista, Abrão trouxe dados valiosos de mercado e explicou como a situação política atual pode trazer resultados para as empresas do setor de máquinas e equipamentos. Abrão Árabe foi secretário de comércio exterior do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC). É doutor em direito internacional pela Universidade de São Paulo e Ph.D. e pesquisador visitante na Universidade de Georgetown, em Washington (EUA). 

Em Ação: quais benefícios e os prejuízos que um acordo de livre comércio com os Estados Unidos poderia trazer para o mercado brasileiro? 

Abrão Miguel: Brasil e Estados Unidos são parceiros estratégicos de longa data e que possuem uma significativa relação de comércio e de investimentos. O fortalecimento da parceria bilateral traria benefícios expressivos para ambos os países na forma de mais comércio, renda e empregos. 

Dimensão relevante que ganharia com uma parceria mais intensa entre os países é a dos investimentos produtivos. O Brasil tem US$ 42,8 bilhões em estoque de investimentos nos Estados Unidos. Já os norte-americanos têm um volume acumulado de U$ 68,2 bilhões de investimentos no Brasil. A maior aproximação entre as duas economias certamente atrairia novos fluxos de investimentos cruzados. 

Entre as principais iniciativas defendidas pela Amcham para uma parceria bilateral mais ambiciosa estão a negociação de um acordo de livre comércio e um acordo sobre dupla tributação, a facilitação do trânsito de empresários por meio do Global Entry, a facilitação de comércio, bem como ações nas áreas de propriedade intelectual, defesa, energia, agronegócio e infraestrutura. 

Temos uma janela única para elevar o status da nossa parceria com os Estados Unidos e devemos colocar nossas fichas nessa oportunidade. 

Em Ação: como essa união afeta o mercado de máquinas e equipamentos? Levando em consideração que será um dos setores que mais terão concorrência com os produtos norte-americanos. 

Abrão Miguel: Os Estados Unidos são o principal destino de exportações brasileiras de bens manufaturados, que alcançaram US$ 16,8 bilhões no ano passado. O setor de máquinas e equipamentos é hoje um dos principais exportadores de produtos manufaturados no Brasil e também tem os Estados Unidos como seu comprador mais importante. Em relação ao universo representativo da ABIMAQ foram cerca de US$ 2,3 bilhões de máquinas e equipamentos embarcados em 2018 para aquele país. 

O setor teria muito a ganhar com maior acesso. Além da redução dos impostos de importação – relativamente modestos – para entrar no território norte-americano, é possível esperar avanços nas áreas de facilitação de comércio e convergência regulatória, o que tornaria menos custoso e burocrático para os exportadores brasileiros cumprirem as exigências do mercado norte-americano. O setor também teria acesso mais competitivo a insumos, novas tecnologias e serviços empregados em seus processos de fabricação, com potenciais ganhos de produtividade. 

Por outro lado, não há dúvidas de que um acordo de livre comércio aumentaria a concorrência no Brasil. Em 2018, foram US$ 2,5 bilhões em importações provenientes daquele país. 

É um desafio que já está posto. Os acordos comerciais em negociação pelo Mercosul aumentarão drasticamente a concorrência no Brasil e nos demais países do Mercosul com parceiros muito competitivos. Além disso, o governo brasileiro tem sinalizado a intenção de revisar a estrutura da Tarifa Externa Comum (TEC), no sentido de reduzir os impostos para as importações de todas as origens. 

É essencial que essas iniciativas caminhem de mãos dadas com uma ambiciosa agenda de reformas para aumentar a competitividade da produção e das exportações brasileiras. 

Em Ação: como esse acordo interfere no setor do agronegócio? 

Abrão Miguel: Brasil e Estados Unidos são duas potências agrícolas mundiais, líderes na produção e exportação de diversos produtos, como laranja, soja e milho. Atualmente, o Brasil exporta para os Estados Unidos alimentos como café, açúcar, mel, suco de laranja, entre outros. 

Um eventual acordo de livre comércio poderia impulsionar as exportações brasileiras desses produtos e abrir novas oportunidades para outros itens pouco explorados. Também poderia permitir acesso mais barato a tecnologias e insumos norte-americanos relevantes para o agronegócio, como fertilizantes, defensivos agrícolas e produtos de saúde animal. Além disso, poderia estimular iniciativas conjuntas de cooperação em âmbito bilateral e mundial em temas como novas tecnologias, biotecnologia, regulação de defensivos agrícolas, entre outros. Em síntese, o saldo tende a ser muito positivo para o agronegócio.